Lula Castro
Deu no site Folhaonline ontem: "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu respeito às decisões do governo de Cuba e condenou o uso da greve de fome por dissidentes como instrumento para que eles sejam soltos, comparando-os a criminosos comuns durante entrevista à agência Associated Press.
´Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade´, afirmou.
O dissidente Guillermo Fariñas, em greve de fome há 15 dias pela libertação de 26 presos, disse em entrevista a Flávia Marreiro, publicada nesta quarta-feira pela Folha que Lula é ´cúmplice da tirania dos Castro´: ´A maioria do povo cubano se sente traído por um presidente que um dia foi preso político´.
Em entrevista, Fariñas afirmou que ´Lula agiu de má-fé´ ao ir para Cuba pouco tempo depois do preso político Orlando Zapata Tamayo morrer, após passar 85 dias sem comer. ´Parece que o poder fez que ele perdesse a memória. No passado, ele foi um perseguido político´, disse. Para o dissidente, tanto o governo cubano quanto os governos que o apoiam são responsáveis pela morte dos presos políticos".
Justamente Lula, que, em 1980, preso sob o argumento de incitar as paralisações em montadoras do ABC, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, não viu outro jeito para clamar por justiça e se enveredou por quatro dias exatamente por uma greve de fome.
As pessoas mudam e é normal que isso ocorra. Mas pisotear os velhos e bons princípios, deixar a trincheira da contestação social e partir para a exploração feita pelos governos, pura e simples, abandonar a democracia e exaltar métodos de exceção e comparar dissidente cubano com bandidos de São Paulo, convenhamos, é mudar demais, desvirtuar valores, rasgar a própria biografia.
Até nisso, Lula segue o exemplo de Fernando Henrique Cardoso, que, à certa altura de seu governo, cravou a seguinte frase: "Esqueçam o que escrevi". Lula poderia declarar, sem corar a face: "Esqueçam tudo o que falei".
A dicotomia do presidente com relação às coisas de Cuba não é de hoje e segue a tradição do velho PT. Impossibilitado de tomar o poder pela revolução, o partido foi se organizando e crescendo para pegar o bastão do Estado pelo voto. Mas retornar à luta de classes e exaltar ditaduras de esquerda é uma prática, demonstrada pelas alas mais sectárias do petismo e também pelos ex-agitadores dos tempos do AI-5, como José Dirceu, que fez estágio na terra de Fidel e mudou a própria face a partir de uma cirurgia plástica bem-sucedida para retornar incólume ao Brasil, e hoje banca o agenciador de grandes empresas, intermediando a venda de empresas públicas, pela bagatela de R$ 1, à iniciativa privada, e ganhar com isso, pelo tráfico eficiente de influências, um valor 600 mil vezes maior, tudo sob as barbas compridas do discurso incoerente da ética na política, que já foi destruído pelo escândalo do mensalão, mas que retorna, na maior cara de pau, quando acusações a adversários brotam da fábrica de dossiês do petismo nacional.
Ao justificar as agressões seguidas aos direitos humanos cometidas pelo regime castrista, Lula mostra sua verdadeira face. As determinações da Justiça e do governo cubano, que o presidente brasileiro tanto exalta, são violências institucionalizadas numa ilha perdida no tempo e no espaço, fadada ao atraso secular, domesticada pela família Castro, como se tudo fosse uma questão de fechar a porteira, torturar quem discorda e exaltar o "status quo".
O presidente perdeu a oportunidade de ficar quieto. Mais do que isso: perdeu a chance de se mostrar um moderno chefe de Estado, aliando sua popularidade à decência de suas opiniões e práticas.
Para o presidente Lula, parece valer muito a retórica sobre a democracia e menos sua prática. É o velho caso do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço", incrustado, como um câncer, no comportamento de grande parte dos brasileiros.