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As origens de uma grande festa
Brasil, País de mestiços. Somos gente vinda dos quatro cantos do mundo: os primeiros indígenas, depois os africanos, na colonização, os portugueses e mais tarde, no século XIX, mais ibéricos, itálicos, germanos, eslavos, etc. No começo do século passado e ao longo deste tempo, os orientais, particularmente os japoneses, somaram-se a este caldeirão intercultural brasileiro, simbiose ainda inexplicada. Agora, em pleno início do século XXI, tempos da globalização, explodem tantas misturas de línguas, costumes, comportamentos e contradições. Assim cabe novamente a pergunta formulada pelos modernistas: quem somos nós? Que País é este? Quais as conexões e conflitos que tantos intercâmbios de cultura criaram? São fecundas ou não estas hibridações? Somos mesmos latino-americanos ou latino-africanos? Ou, no dizer de Darcy Ribeiro, formamos a nova Roma do futuro? Será mesmo uma nova latinidade tropical? Tantas perguntas e tantas respostas... Esta pequena história da Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes visa, não a responder a estas questões anteriores, mas a contribuir modestamente para esse debate, acrescentando uma “colher de chá” (seria pretensão de minha parte um objetivo maior) nesta discussão. O foco principal é salientar um modo da cultura regional do interior paulista, uma explicação da localidade, que se afirmou pela mescla entre brancos, caboclos, pretos e a inserção da cultura japonesa que aqui chegou, em 1919. Para esta reconstituição histórica foi fundamental o uso do método da história oral com entrevistas mais abertas, mais flexíveis à voz da testemunha, tentando interferir o mínimo possível no discurso do depoente. A testemunha reconstrói sua identidade num duplo movimento de lembranças e esquecimentos. São rastros de revelação e restos de retenção que constituem uma pequena parte da memória coletiva. Ao historiador cabe o restabelecimento do fato histórico, ou melhor, uma recomposição da vida social e não uma verdade absoluta do passado. A minha tarefa comporta inúmeras dificuldades. Em primeiro lugar, pelo foco, mesmo, isto é, como analisar este cruzamento de vivências que existia de forma separada e depois se combinou por aproximações e conflitos? É necessário, sempre, afirmar que mestiçagens culturais não se fazem apenas em alianças harmoniosas, como muitos enaltecem, mas por combinações e contradições. E quero deixar claro: não procurem neste texto e nos próximos, respostas conclusivas, mas, sem dúvida, mais perplexidades. Além disso, outro problema: um dos objetivos desta exposição é transformar um estudo histórico, com alguns conceitos acadêmicos, numa linguagem mais popular, algo jornalístico, para que o leitor entenda um processo que foi complexo e contraditório. Conseguirei? Não sei! Mas desejo que leituras de textos históricos possam se tornar mais prazerosas e polêmicas. É preciso esclarecer, ainda, que este trabalho sobre a Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes é a contribuição deste historiador e do Mogi News para a comemoração, ou melhor, reflexão a respeito do centenário dos primeiros imigrantes. E, principalmente, acentuar a importância dessa gente na vida desta cidade, mostrando o seu trabalho, educação, culinária, festas, aspectos religiosos, doenças do período, discriminações sofridas, epopéias vividas, artes marciais, etc. Pois bem, este é um material inédito e sujeito, portanto, a controvérsias. Estas serão bem-vindas! Enfim, o meu agradável desafio é responder a essas questões acima, sem desvirtuá-las para uma glorificação, pois a ciência da história a isto não serve. É preciso mostrar múltiplos relatos e discursos, visões contrastantes e evidenciar a narrativa daqueles que foram explorados, os “sem voz”, japoneses ou não, para a compreensão de suas lutas e de sua real participação social. Quero agradecer, também, a oportunidade oferecida pelo Mogi News, jornal pluralista e democrático que enriquece a cidade com seus férteis jornalistas e colaboradores. Obrigado! Como é bom estar ao lado de pessoas que têm visões contrastantes! Luto pela participação e organização social, defesa da cidadania e dos Direitos Humanos. Obrigado Mogi News! Amo Mogi das Cruzes! Mário Sérgio de Moraes, 55 anos, é doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e professor titular de Cultura Brasileira da Universidade de Mogi das |