Casarão do Chá corre o risco
de ficar fora das comemorações

MARIA REGINA ALMEIDA
Da reportagem local

A conclusão do processo de restauro do Casarão do Chá, único patrimônio cultural tombado pelo governo federal dentro da história da Imigração Japonesa, deveria servir como um símbolo para o País durante as comemorações pelo centenário da imigração no próximo ano, como era o desejo da Prefeitura de Mogi das Cruzes, entidades culturais e da própria colônia. Porém, a demora por parte do governo federal em enviar a segunda parte da verba pode comprometer esse plano.

Situado no bairro Cocuera, o imóvel atualmente serve apenas como um símbolo do descaso ao patrimônio histórico. Erguido em 1942, o prédio abrigou uma fábrica de chá. Suas paredes, feitas de taipa, e toda uma “engenharia” de troncos de árvores encaixados milimetricamente, e sem o uso de um único prego, suportavam o andar superior da antiga fábrica.

Este conjunto fazia do local um espaço para visitação turística e também para estudos, tanto de universitários como de profissionais de engenharia, arquitetura e de artes plásticas. Hoje sem o telhado e com parte das paredes em ruínas, o Casarão do Chá aguarda urgentemente pelo término da restauração. Parte do maquinário usado para a moagem das folhas de chá ainda se encontra no piso inferior do prédio, mas está corroído pela ferrugem.

Ao redor da antiga fábrica, era feita a plantação das folhas que, após serem embaladas com a marca Tokio, tinham como destino a exportação para países da Europa. Hoje, o que restou daquele cultivo são apenas alguns pés em meio ao matagal.

Para o arquiteto Aldemy Gomes de Oliveira, secretário-geral do Conselho da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Mogi, a tecnologia utilizada na obra é revolucionária. “É uma técnica milenar trazida do Japão, na qual duas madeiras são cravadas entre si, dispensando o uso de pregos ou de qualquer outro mecanismo”, conta.

Porém, de acordo com estudos feitos por Oliveira na obra, o carpinteiro japonês Kazuo Hanaoka também se valeu na época de uma técnica já usada no Brasil, que consistia de uma amarração de cipós nas malhas horizontais e verticais, com barro jogado por cima. Segundo ele, esta mistura de técnicas saiu dos padrões existentes na época.

Ele destaca o papel histórico desta obra por ter introduzido a imagem arquitetônica nipônica no Brasil e ter servido para abrigar uma fábrica de chá. “Enquanto a colônia japonesa, em termos nacionais, não considerar este patrimônio importante dentro da história da imigração, infelizmente, ele não será recuperado”, acredita o arquiteto.

Desinteresse

Para responder a pergunta sobre o triste fim a que chegou o imóvel e os caminhos para a sua restauração, o Mogi News ouviu representantes do poder público, da colônia japonesa e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico (Comphat) de Mogi.

O presidente da Associação de Preservação do Casarão do Chá, Akinori Nakatani, disse que houve desinteresse por parte das administrações anteriores em preservar o espaço. O casarão havia sido desapropriado em 1987, o que, na teoria, conferia ao poder público a responsabilidade pela sua preservação. Porém, o que se viu foi uma longa história de abandono. Nakatani conta que fundou a associação em outubro de 1996, época em que o local já estava parcialmente danificado. Um ano depois, a entidade obteve junto à administração o direito de concessão de uso do casarão por 20 anos –até 2017. Contudo, sem possibilidade de manter uma pessoa no local em tempo integral, o casarão foi alvo fácil para a depredação.

O madeiramento que sustentava o telhado precisou ser retirado, pois ameaçava ruir. Há quase dez anos um abrigo provisório foi construído por cima do casarão para impedir que a chuva danifique o que sobrou das paredes de taipa e do madeiramento.

Em 2004, a associação foi buscar verbas junto ao Ministério da Cultura, que aprovou o projeto de restauração, orçado em cerca de R$ 800 mil –apenas uma parte da verba foi liberada. Nakatani tenta obter a segunda parte do dinheiro para dar continuidade ao restauro, paralisado desde maio do ano passado.

A informação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dada ao Mogi News, depois de muitas ligações e empurra-empurra para várias pessoas, é que o órgão já deu o parecer técnico ao projeto da segunda fase da restauração e o remeteu de volta para o Ministério da Cultura em abril deste ano. Este, por sua vez, aguarda a realização da reunião do Fundo Nacional da Cultura (FNC), cujos integrantes têm a prerrogativa de selecionar todos os projetos encaminhados ao órgão e autorizar ou vetar o recurso.

Devido à greve dos funcionários do Ministério da Cultura esta semana, o Mogi News não conseguiu obter informações sobre a data da próxima reunião ou se o projeto já foi submetido ao FNC no encontro anterior.

Sem respostas

A presidente do Comphat de Mogi, Ana Maria Sandim, lamenta a demora no envio da segunda parte da verba, uma vez que todo o projeto já foi aprovado pelo Ministério da Cultura. “Todos os laudos, fotos e documentos exigidos pelo ministério já foram enviados. Não conseguimos entender este descaso e a falta de respostas sobre o andamento do projeto”, afirmou Ana Maria.

Para ela, a recuperação do Casarão do Chá seria de extrema importância, já que o País está prestes a comemorar os 100 anos da Imigração Japonesa.

O presidente do Bunkyo Associação Cultural de Mogi das Cruzes, Kiyoji Nakayama, classificou como “triste” o estado em que se encontra o Casarão do Chá atualmente. Ele não tem informações sobre o que houve com o prédio para ter chegado no estado atual. A Prefeitura de Mogi, que investiu R$ 54 mil na primeira fase da obra, não quis comentar o assunto esta semana, pelo fato de ter uma associação responsável pelo prédio.

Ficha técnica

O Casarão do Chá

Onde fica: Estrada do Nagao, km 2,
bairro Cocuera, em Mogi das Cruzes

Área total do imóvel: cerca de 800
metros quadrados (inclui térreo e 1º andar)

Tombamentos: pelo Condephaat, em 1982,
e pelo Iphan, em 1986

Ano de construção: 1942

Principais características: pórtico frontal em estilo oriental; estrutura de madeira para a sustentação das paredes feita sem a colocação de nenhum prego

Atual responsável pelo prédio: Associação de Preservação do Casarão do Chá, uma Organização Não-Governamental (ONG) de Mogi, sem fins lucrativos

Quem deve enviar a verba: Ministério
da Cultura, que liberou R$ 253 mil referente à primeira etapa

O que será feito no local: após a sua reconstrução, a proposta é que o local abrigue ateliês de cerâmica, vidro e marcenaria, além de uma feira de artesanato e um restaurante japonês

Fonte: Associação de Preservação do Casarão do Chá