Passeio por Mogi

Ivone Marques

Esta senhora quatrocentona de braços abertos para quem vem de fora, me recebeu há mais de 30 anos e, então, eu descubro a cada dia um novo cantinho, uma nova flor, uma nova pessoa. Vejo muita gente que trabalha, mora, cria filhos, vai à escola, passeia, se cuida, come, vive e falece. O ciclo vital da urbe roda com a precisão do Grande Arquiteto do Universo, mas a sorte nos pede uma ajuda. Que fazer para ver esse povo mais feliz?

De princípio, que todos tenham comida, roupa e moradia. Mogi é rica de espaços para que cada um tenha seu cantinho. Cinturão hortifrutigranjeiro, então é possível também garantir o prato de comida, basta apenas uns acertos na distribuição. Chegamos ao coração das coisas. Será que todos em Mogi têm acesso ao trabalho? Claro que não. Faltam vagas, porque faltam mais empresas e isso depende de incentivos políticos. Não é tarefa para um único dia, nem um mês, nem um ano. Tem de ser um projeto contínuo que esteja acima de questões partidárias.

Nos 30 anos que testemunhei o crescimento da cidade, vi grandes atos de generosidade, mas também presenciei enormes surtos de barbárie. Busquei as causas. Sempre as mesmas. Um processo marginalizador retira as referências básicas da vida humana. Pouca gente aprendeu que a educação das crianças não é obrigação só do poder público, mas também da família. E a tarefa se complica. É preciso dar escolaridade boa às crianças, mas é necessário incluir os pais no programa. Mas como dizer a um adulto que sempre é tempo de aprender a lidar com a vida?

Os ouvidos foram tamponados. Ouve-se lixo e se faz pouco da boa música. Nas escolas, canta-se mais funk que cantigas infantis. Já não se pula amarelinha, o brinquedo foi substituído pelos maneios sensuais das moças que se vê na televisão. A saúde faz avanços bonitos, atende as mulheres com especialidade, cria partos em situação diferenciada, mas na cidade ainda há focos de doenças graves, que dependem de ações conjuntas entre o povo e a Prefeitura. Nada pode ser recebido de graça sem a contrapartida da cidadania. E ser cidadão significa compartilhar obrigações sociais que envolvam as questões sanitárias e educacionais.

Dar esmolas é ultrajante para quem dá e para quem recebe, porque torna visível a linha divisória entre o bem e a injúria. Ainda que a educação ofereça oportunidades, que valem as oportunidades para gente cujos sentidos embruteceram ao sabor das adversidades? Vai aqui o grande apelo de Mogi. Resgate seus artistas. Estimule seus músicos. Faça a cidade dançar ao som das melodias eternas, facilite o trabalho dos pintores e escultores, ame o teatro, enfim, enxerte sensibilidade pelo viés da cultura, pois esse será sempre o legado para as novas gerações.

Mãe, amada amiga terra, seja plural e deixe que as cores de Deus iluminem sua natureza e façam brilhar as almas de sua gente.

Ivone Marques é doutora em História pela USP e colaboradora do Mogi News