Matéria publicada em 29/07/12
Editorial
Analfabeto político
É tempo de campanha eleitoral. Então, chega de alienação sobre as discussões políticas, o cidadão que anula o seu voto não imagina o poder transformador que oculta
Apesar de profundo, parece até clichê o texto "O Analfabeto Político", do poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht, mas continua mais atual do que nunca. E porque hoje é domingo vale, neste espaço, uma discussão sobre o comportamento do brasileiro quando o assunto é a escolha das pessoas que vão decidir por todos como será o acesso à saúde, as ações que vão combater a violência, os investimentos que vão melhorar a vida do cidadão, enfim. É um assunto delicado, para não dizer dramático, porque é sério e mexe com a vida de todo mundo.
O marxista Brecht sustentou, na década de 40, que o cidadão em geral se aliena das discussões políticas, por isso, é o maior responsável pela vitória dos corruptos nas eleições de todas as esferas. Assim, os maus políticos são sustentados no poder por quem os colocou lá. Em tempo de campanha política, nada mais conveniente do que relembrar as palavras do escritor: "O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida. É tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nascem a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra e corrupto".
Infelizmente, quantas e quantas pessoas o leitor conhece nesta situação? Você já ouviu alguém dizer que não se interessa por política e que não vai votar em ninguém? Com certeza. Muitos justificam a sua alienação tornando como verdade a anulação do voto porque estão descontentes com política, têm verdadeira aversão às eleições e nem sequer ouvem propostas ou discutem qual é pior candidato. Isto já virou frase feita.
Pensando por outro lado, é muito mais cômodo pensar assim, afinal, quando as coisas não vão bem, é fácil culpar o outro. É como se estas pessoas tivessem voltado no tempo. Será que era melhor aceitarmos os governantes que nos enfiavam goela abaixo no passado, na época dos coronéis e dos militares, do voto do cabresto, quando a mulher sequer podia votar e tudo era feito às escondidas? Claro que não. A democracia no Brasil foi conquistada às duras penas. O clamor pelas eleições diretas para presidente da república levou multidões às ruas em 1980. Passados mais de 30 anos, parece que ainda não sabemos sobre o poder do voto porque sequer estamos dispostos ouvir a propostas dos candidatos e os classificamos como "farinha do mesmo saco", achamos que todos são corruptos, enfim. Mas não são. Esta aversão à política está muito clara nas redes sociais, onde o titular escolhe as pessoas com quem deseja interagir e lá publica o que bem entender. O que se tem visto por lá, são avisos mal educados de pessoas dizendo não à propaganda na Facebook sob pena de excluir o "amigo" que pedir votos. É um canal interessante para ser utilizado para campanha, mas, pelo jeito, a maioria não quer saber das propostas dos candidatos por lá, que pelo jeito, serve como um meio de amenidades e diversão.
Política se discute sim. É preciso sabatinar o candidato que bater à porta da nossa casa pedindo votos. Saber quem ele é, o que pretende fazer e o pensa sobre a nossa cidade, independentemente de disputar o cargo de prefeito ou de vereador. Discutir política tem de ser como falar de futebol ou da novela. Temos sim de palpitar sem sermos chamados e o principal, participar do processo eleitoral votando em pessoas éticas e de boas ideias. Está aberta a campanha: saia da alienação, não anule o seu voto e participe das decisões importantes para a nossa comunidade. Todos somos responsáveis por tudo de bom ou ruim que está por vir.